
Em 2023, a Prefeitura de Lagoa Santa encontrou a bactéria da febre maculosa em carrapatos coletados na orla da Lagoa Central e na margem da Lagoa Olhos d’Água. Para quem passeia com cachorro por ali, a notícia pede atenção, não medo. A prevenção é simples e cabe na rotina: carrapaticida em dia, inspeção depois do passeio e alguns cuidados no quintal.
Neste guia, explico o que foi encontrado, como examinar o seu cão, como tirar um carrapato com segurança e quando procurar ajuda.
O que a Prefeitura encontrou na Lagoa Central?
Entre 14 e 21 de julho de 2023, a Prefeitura fez uma coleta de carrapatos na cidade. A análise da Funed confirmou carrapatos do gênero Amblyomma infectados pela bactéria da febre maculosa em dois pontos:
- no Ponto Marinheiro, na orla da Lagoa Central;
- perto do ponto de ginástica ao ar livre da orla da Lagoa Olhos d’Água.
O plano municipal aponta capivaras e cavalos como os principais hospedeiros desse carrapato na área. Isso não significa que todo carrapato da orla esteja infectado. Significa que a prevenção precisa fazer parte da rotina de quem frequenta esses lugares, com ou sem cachorro.
A febre maculosa aparece em outras cidades da região?
Aparece. Em 2025, o Governo de Minas confirmou casos em cinco das oito cidades que atendo: Lagoa Santa, Vespasiano, Pedro Leopoldo, Santa Luzia e Matozinhos. Em outubro daquele ano, Matozinhos decretou situação de emergência por causa da doença.
A Secretaria de Estado de Saúde explica que os casos se concentram no período seco, especialmente entre junho e novembro. Entre as medidas de prevenção, ela recomenda o uso periódico de carrapaticida em cães e cavalos, conforme a orientação do médico veterinário.
Por que o cão entra nessa história?
O carrapato-estrela (Amblyomma sculptum) se alimenta do sangue de cavalos, capivaras, cães e outros animais. Um cão que fareja a grama da margem ou entra no mato pode voltar para casa com carrapatos presos ao corpo e levá-los para perto da família, do sofá e da cama.
Por isso, o controle de carrapatos no cão protege a casa inteira. E há um benefício a mais: carrapatos também transmitem doenças que afetam o próprio cão, então manter o controle em dia cuida da saúde dele ao mesmo tempo.
Como escolher o carrapaticida do meu cão?
Há carrapaticidas em comprimido, em pipeta e em coleira. Nenhum é o melhor para todos os cães: a escolha depende do peso, da idade, da saúde, do contato com água e de quem mais vive na casa. Alguns produtos feitos para cães são tóxicos para gatos, e isso pesa muito em casas com as duas espécies.
Na consulta veterinária em casa, examino a pele, indico o produto e deixo anotado o intervalo entre as doses. Três cuidados fazem diferença:
- respeite a data da próxima dose, principalmente entre junho e novembro;
- não combine produtos por conta própria, porque somar carrapaticidas pode intoxicar o cão;
- use a dose do peso atual, e não a do ano passado.
Se você já tem uma visita marcada para vacinar o pet em casa, aproveitamos a mesma visita para revisar o controle de carrapatos.
Como examinar o cão depois do passeio?
Faça a inspeção logo na volta, antes de o cão deitar no sofá ou na cama. Passe as mãos devagar contra o pelo e procure pequenos caroços. Os lugares preferidos dos carrapatos são:
- entre os dedos e as almofadinhas das patas;
- dentro e atrás das orelhas;
- em volta dos olhos e do focinho;
- no pescoço, embaixo da coleira;
- nas axilas, na virilha e na barriga;
- na base da cauda.
Uma toalha clara no chão ajuda a enxergar carrapatos que se soltam. Em cães de pelo longo ou escuro, um pente fino e uma lanterna facilitam. Aproveite e confira você também: o plano municipal orienta quem frequenta áreas com carrapatos a verificar o corpo a cada 4 horas, e roupas claras ajudam a enxergá-los.
Como tirar o carrapato do cão com segurança?
Se encontrar um carrapato preso, retire-o com calma:
- Proteja as mãos com luvas ou um saquinho plástico. A Secretaria de Estado de Saúde orienta evitar o contato com as unhas e não esmagar o carrapato.
- Com uma pinça de ponta fina, segure o carrapato o mais rente possível da pele.
- Puxe com cuidado e firmeza, num movimento contínuo, sem apertar o corpo dele.
- Coloque o carrapato num pote fechado com álcool, ou enrole-o em fita adesiva, e descarte.
- Lave o local com água e sabão e, depois, lave bem as mãos.
Não use fogo, óleo, querosene ou outros produtos caseiros para “soltar” o carrapato. Esses métodos podem ferir ou irritar a pele do cão, e o carrapato continua precisando ser retirado com pinça.
Procure avaliação veterinária quando houver muitos carrapatos, quando eles estiverem dentro do ouvido ou muito perto dos olhos, quando a pele ficar vermelha e inchada por vários dias ou quando o cão ficar abatido, sem apetite ou com febre nos dias seguintes. Irritações de pele que não melhoram podem ser avaliadas no atendimento em dermatologia.
O que fazer no quintal e nos passeios?
No passeio pela orla:
- prefira a calçada e as áreas de grama baixa;
- não deixe o cão entrar no capim alto e na vegetação da margem, por onde circulam capivaras e cavalos;
- evite que ele deite ou role na grama da beira d’água;
- faça a inspeção logo depois.
Em casa:
- mantenha a grama do quintal baixa e retire entulho, restos de poda e folhas acumuladas;
- lave com frequência a caminha e as mantas do cão;
- use produtos para o ambiente só com orientação profissional, porque muitos são tóxicos para pets e pessoas.
Em chácaras, como as da Lapinha e de Lagoinha de Fora, muitos cães vivem soltos no terreno e têm mais contato com mata. Nesses casos, o carrapaticida pede ainda mais disciplina com as datas.
E se alguém da família tiver febre depois do contato com carrapatos?
Nas pessoas, quem avalia a febre maculosa é o médico. Segundo o plano de Lagoa Santa, os sintomas aparecem entre 2 e 14 dias depois do contato com carrapatos: febre geralmente alta, dor de cabeça, dor no corpo, mal-estar, náuseas e vômitos. Manchas vermelhas na pele podem surgir entre o segundo e o sexto dia, ou nem aparecer.
Se alguém da casa tiver esses sintomas depois de passear na orla, em mata ou em pasto, a orientação da Secretaria de Estado de Saúde é procurar imediatamente o serviço de saúde e contar sobre o contato com carrapatos. Não espere as manchas aparecerem.
Resumo para o dia a dia
- Carrapaticida indicado pelo veterinário, sem atrasar as doses.
- Inspeção do cão, e de você, logo depois de passeios na orla, no mato ou no pasto.
- Retirada com pinça e luvas, sem esmagar.
- Quintal com grama baixa e sem entulho.
- Atenção redobrada de junho a novembro.
- Febre depois de contato com carrapatos: serviço de saúde, sem demora.
Se você mora em Lagoa Santa ou em uma das cidades vizinhas, como Matozinhos, posso examinar o seu cão em casa e montar com você o plano de controle de carrapatos.
Perguntas frequentes
Posso continuar passeando com meu cão na orla da Lagoa Central?
Na maioria dos casos, sim, com cuidados. Prefira a calçada e a grama baixa, não deixe o cão entrar na vegetação da margem, por onde circulam capivaras e cavalos, e examine o cão logo na volta. Mantenha o carrapaticida em dia e respeite as placas e orientações da Prefeitura na orla.
Achei um carrapato no meu cão. A família corre risco?
Encontrar um carrapato não quer dizer que haja infecção. Retire-o com pinça, sem esmagar, e revise o controle de carrapatos do cão. Se alguém da casa tiver febre, dor de cabeça ou dor no corpo até 14 dias depois do contato com carrapatos, procure o serviço de saúde e conte sobre o contato.
Qual é a época de mais risco de febre maculosa em Minas?
Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, os casos se concentram no período seco, especialmente entre junho e novembro. Nesses meses, vale redobrar a inspeção depois dos passeios, não atrasar o carrapaticida e evitar capim alto, margens de lagoas e pastos com cavalos e capivaras.
O carrapaticida dispensa a inspeção depois do passeio?
Não. O carrapaticida é a base da prevenção, mas a inspeção continua importante: ela ajuda a achar carrapatos que acabaram de subir no cão e mostra se o produto está funcionando bem para ele. Se você continua encontrando carrapatos presos com frequência, vale revisar o produto na consulta.
Posso usar no gato o carrapaticida do cachorro?
Não. Alguns produtos feitos para cães são tóxicos para gatos, mesmo em pequena quantidade. Cada espécie precisa de um produto próprio, na dose do peso atual, indicado pelo veterinário. Em casas com cães e gatos, também é preciso cuidado para o gato não lamber o cão logo depois da aplicação de uma pipeta.
Você retira carrapatos e indica o carrapaticida em casa?
Sim. Na consulta em casa, examino a pele e o pelo, retiro os carrapatos presos e indico o carrapaticida de acordo com o peso, a idade, a saúde e a rotina do cão, inclusive se ele frequenta a orla ou vive em chácara. Deixo anotadas as datas das próximas doses.
Fontes e referências (6)
- Plano Municipal de Enfrentamento à Febre Maculosa — Prefeitura de Lagoa Santa (2023-09-19)
- Prevenção à febre maculosa deve ser intensificada nos períodos mais secos do ano — Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (2018-06-13)
- Febre maculosa em MG: governo divulga lista de cidades com casos confirmados em 2025 — Itatiaia (2025-09-30)
- Febre maculosa: Minas confirma mais duas mortes na Grande BH — Estado de Minas (2025-10-01)
- Cidade mineira declara emergência após segunda morte por febre maculosa — Estado de Minas (2025-10-03)
- Febre maculosa — Ministério da Saúde


