
Virada do ano, Natal, festas juninas, comemorações de futebol: para muitos cães e gatos, essas datas trazem horas de medo. O estouro chega sem aviso, de vários lados, e o pet não tem como entender o que está acontecendo. Com um pouco de planejamento, dá para deixar esse período bem mais leve. Neste guia eu explico o que fazer antes, durante e depois dos fogos, quais sinais observar e quando vale procurar ajuda.
O que dizem as leis de Lagoa Santa e região?
Três cidades onde eu atendo têm leis contra fogos barulhentos:
- Lagoa Santa (Lei 4.321/2019): proíbe fogos e explosivos que causem poluição sonora e permite apenas os artefatos sem estampido, os chamados fogos silenciosos.
- Santa Luzia (Lei 4.381/2022): proíbe fogos de artifício com barulho e qualquer artefato pirotécnico de efeito sonoro ruidoso.
- Pedro Leopoldo (Lei 3.672/2022): proíbe soltar fogos e outros artefatos ruidosos em todo o município.
As leis ajudam, mas não acabam com o barulho. Em 2024, a Câmara Municipal de Pedro Leopoldo reconheceu que a lei local não tem sido respeitada e orientou a denúncia pelo 190. Em Lagoa Santa, moradores relataram ao jornal Estado de Minas fogos com estampido na virada de 2023 para 2024. Por isso, more onde morar, vale preparar o pet como se o barulho fosse acontecer.
Como saber se o meu pet está com medo?
Cada animal reage de um jeito. Os sinais mais comuns são:
- tremer, ofegar ou babar sem ter feito esforço;
- andar de um lado para o outro, sem conseguir se acalmar;
- latir, uivar ou miar mais que o normal;
- grudar em você ou, ao contrário, se esconder;
- tentar fugir, cavando, pulando ou roendo portas;
- fazer xixi ou cocô fora do lugar.
O gato, em geral, some: entra embaixo da cama ou no fundo do armário e só aparece quando o barulho passa. Um detalhe importante: em parte dos animais, o medo aumenta a cada nova exposição. Quanto antes você agir, melhor.
O que fazer antes dos fogos?
- Converse com o veterinário com antecedência. A associação britânica de veterinários de pequenos animais (BSAVA) recomenda buscar orientação meses antes das datas, porque o treino para reduzir o medo leva tempo, principalmente em casos antigos ou intensos.
- Monte um refúgio. Escolha o cômodo mais silencioso da casa, de preferência longe das janelas da rua. Deixe ali cama, água, brinquedos e, para gatos, a caixa de areia. Ofereça um canto fechado para ele se esconder, como uma caixa de transporte aberta e coberta por uma manta. Nas semanas anteriores, leve o pet para lá com petiscos e brincadeiras, para ele associar o lugar a coisas boas.
- Identifique o pet. Coloque na coleira uma plaquinha com nome e telefone e, se ele tiver microchip, confira se o contato está atualizado. O CFMV alerta que os registros de animais que fogem assustados aumentam entre o Natal e o Ano-Novo.
- Feche as rotas de fuga. Confira portões, muros, telas e janelas. Em casa com quintal ou em chácara, o cão em pânico pode pular ou cavar onde nunca tentou. Evite deixá-lo amarrado: preso na corda, ele pode se machucar tentando se soltar.
- Treine, se houver tempo. Com o pet tranquilo, toque sons de fogos em volume bem baixo enquanto oferece petiscos ou brincadeira. Aumente o volume aos poucos, só se ele continuar relaxado. Numa pesquisa da Universidade de Berna, na Suíça, com 1.225 cães, ensinar filhotes e adultos ainda sem medo a associar o barulho a coisas boas foi muito eficaz para prevenir o medo de fogos. Em pets que já têm medo, esse treino deve ser orientado.
E durante a queima?
- Mantenha o pet dentro de casa, no refúgio, com portas e janelas fechadas e cortinas puxadas.
- Ligue a TV, um rádio ou um ventilador. Um som constante ajuda a abafar os estouros.
- Fique por perto e fale com calma. Se ele procurar colo, acolha; se preferir o esconderijo, respeite. Nunca puxe o gato de dentro do armário.
- Se ele aceitar, ofereça um petisco bem gostoso logo depois de cada estouro.
- Não brigue nem castigue. Medo não é desobediência.
- Cuidado ao abrir a porta da rua ou o portão: é nessa hora que muitos escapam.
E depois dos fogos?
Antes de soltar o pet no quintal, recolha os restos de fogos que caíram no terreno. Confira se ele não se machucou tentando fugir e observe o comportamento nos dias seguintes. Na mesma pesquisa de Berna, quase três em cada quatro cães com medo estavam recuperados na manhã seguinte, mas alguns levaram até uma semana, e uma pequena parte, semanas ou meses. Se o medo durar, ou piorar de um ano para o outro, vale montar um plano de tratamento com calma, longe das datas de festa.
Pets idosos, cardiopatas e gatos precisam de cuidado extra?
Precisam. Muitos pets idosos já convivem com dor nas articulações, doenças crônicas ou confusão mental, e uma noite de pânico pesa mais para eles. Em quem tem doença do coração, o susto acelera o coração e a respiração, então o plano, incluindo qualquer remédio, deve ser combinado com quem acompanha o caso. No cuidado de pets idosos, essa conversa faz parte da rotina.
Para gatos, o refúgio precisa de esconderijo fechado ou alto, água e caixa de areia no mesmo cômodo, e janelas com tela bem fechadas. O atendimento para gatos em casa evita o estresse extra do transporte numa época que já é difícil.
Posso dar calmante para o meu pet?
Só depois de avaliação veterinária. Existem medicamentos de uso veterinário para o medo de barulho, e a BSAVA recomenda usá-los quando há evidência de benefício, sempre junto com as mudanças no ambiente. A escolha depende do exame, da idade, do peso, da saúde do coração, do fígado e dos rins e dos outros remédios em uso. Por isso:
- não use calmante de uso humano. Alguns podem ter efeito contrário e deixar o pet mais agitado;
- não use acepromazina por conta própria. Segundo as diretrizes da AAFP e da ISFM, ela não é ansiolítica: pode deixar o corpo mais parado sem tirar o medo;
- se houver receita, teste antes. Costumo pedir uma dose de teste alguns dias antes da data, para ver como o pet responde.
A avaliação pode ser feita numa consulta veterinária em casa, sem precisar levar um pet assustado até a clínica.
Quando o susto vira urgência?
Procure um hospital veterinário 24 horas se o pet tiver convulsão, desmaio, dificuldade para respirar, gengiva muito pálida ou arroxeada, ou algum ferimento depois de tentar fugir. Na dúvida, ligue para o hospital e conte o que está acontecendo.
Perguntas frequentes
Com quanto tempo de antecedência devo me preparar para os fogos?
O ideal é começar meses antes, principalmente se o pet já teve reações fortes, porque o treino para reduzir o medo leva tempo. O refúgio e a identificação podem ser organizados nas semanas anteriores. Se você acha que o pet vai precisar de remédio, marque a avaliação com folga, para dar tempo de testar a dose antes da data.
Posso dar calmante de gente para o meu cachorro ou gato?
Não. Calmantes de uso humano podem ter efeito contrário, e a dose segura para um pet depende de peso, idade e saúde de órgãos como coração, fígado e rins. A acepromazina, muito lembrada nessa época, não tira o medo. Qualquer remédio para os fogos deve ser receitado depois de uma avaliação veterinária.
Meu gato some durante os fogos. Devo tirá-lo do esconderijo?
Não. Para o gato, se esconder é um jeito de se sentir seguro. Deixe-o onde está, com a porta do cômodo fechada e água e caixa de areia por perto. Quando o barulho passar, ele sai por conta própria. Se, depois da festa, ele continuar escondido, sem comer ou sem usar a caixa de areia, vale uma avaliação.
O que fazer se o meu cão fugir durante os fogos?
Comece a procurar logo, pela vizinhança, e peça que alguém fique em casa, atento ao portão, caso ele volte. Avise nos grupos do bairro e nas redes sociais, com foto recente e telefone. A plaquinha na coleira ajuda muito quem encontrar o cão. Quando ele voltar, confira se há ferimentos e deixe-o descansar no refúgio.
Onde denunciar fogos com estampido?
Em Pedro Leopoldo, a própria Câmara Municipal orienta a denúncia pelo 190. Em Lagoa Santa e em Santa Luzia, que também têm leis contra fogos barulhentos, procure a prefeitura para saber qual é o canal de fiscalização. Anotar o horário e o local ajuda a registrar a ocorrência.
Fontes e referências (7)
- Moradores de Lagoa Santa dizem que show de fogos da prefeitura causou barulho (cita a Lei 4.321/2019) — Estado de Minas (2024-01-02)
- Lei nº 4.381, de 10 de janeiro de 2022 (proíbe fogos com barulho em Santa Luzia) — Prefeitura de Santa Luzia (2022-01-10)
- Pedro Leopoldo tem lei que proíbe fogos com barulho (Lei 3.672/2022) — Câmara Municipal de Pedro Leopoldo (2024-11-13)
- Festa para você, pânico para eles: fogos com estampido não são tradição e representam risco para animais e pessoas, alerta CFMV — Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) (2025-12-23)
- Fireworks: position statement — British Small Animal Veterinary Association (BSAVA)
- Not a one-way road: severity, progression and prevention of firework fears in dogs (PLOS ONE) — Universidade de Berna (Vetsuisse Faculty) (2019-09-06)
- 2022 AAFP/ISFM Cat Friendly Veterinary Interaction Guidelines: Approach and Handling Techniques — Journal of Feline Medicine and Surgery (AAFP/ISFM) (2022-10-19)


