
A leishmaniose visceral está presente na região metropolitana de Belo Horizonte, onde as prefeituras mantêm ações permanentes de controle. Ela afeta cães e pessoas, e a prevenção começa em casa, com cuidados simples que qualquer tutor consegue manter.
Neste guia, explico como a doença passa para o cão, quais sinais observar, como são os exames e o que funciona na prevenção, da coleira ao quintal.
Como a leishmaniose passa para o cão?
A doença é causada por um parasita e transmitida pela picada do mosquito-palha (Lutzomyia longipalpis), também chamado de birigui, tatuquira ou asa-dura. Ele tem hábito crepuscular e noturno: fica ativo ao entardecer e se alimenta principalmente à noite.
O mosquito-palha se cria em lugares úmidos, sombreados e com matéria orgânica acumulada, como folhas, frutos caídos e fezes de animais. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, ele pode voar até 1 quilômetro, mas a grande maioria não vai além de 250 metros. Na prática, o mosquito que pica o seu cão costuma nascer perto de casa, e é por isso que o quintal importa tanto.
Nas cidades, o cão é o principal reservatório do parasita, segundo o Ministério da Saúde. O mosquito se infecta ao picar um cão doente e depois pode picar outros cães e pessoas. Proteger o cão, portanto, também protege a família e a vizinhança.
Quais sinais a leishmaniose causa no cão?
Os sinais costumam aparecer aos poucos e podem ser confundidos com os de outras doenças. Fique de olho em:
- perda de apetite e emagrecimento;
- pelo opaco e queda de pelos;
- feridas na pele, principalmente no rosto, no focinho e nas orelhas;
- unhas crescendo demais;
- dificuldade para mexer as patas traseiras, nos casos mais avançados.
Há também cães infectados que não mostram sinais. Por isso, os exames são importantes não só quando algo aparece, mas também antes de algumas decisões, como a vacinação.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico junta o exame clínico e os exames de sangue. Os mais usados são os testes sorológicos, como o teste rápido e o ELISA, que procuram anticorpos contra o parasita. Belo Horizonte, por exemplo, usa esses dois testes no programa municipal. Conforme o caso, pode ser preciso um exame complementar, como o PCR, que procura o material genético do parasita.
Todo resultado é interpretado junto com o exame do cão, e às vezes precisa ser confirmado. A coleta de exames em casa evita levar um cão abatido até a clínica: colho o sangue na sua casa e envio a amostra ao laboratório parceiro.
Como proteger o cão do mosquito-palha?
A prevenção combina quatro frentes:
- Coleira com inseticida. A coleira impregnada com deltametrina a 4% tem ação repelente contra o mosquito-palha. No programa de Belo Horizonte, ela é trocada a cada seis meses. Em casa, siga o prazo da bula e troque antes se a coleira se perder ou estragar. Existem outros produtos repelentes, e escolho o mais adequado para o seu cão na consulta veterinária em casa.
- Telas de malha fina em janelas e portas, principalmente no cômodo onde o cão dorme.
- Quintal limpo. Capine e limpe com frequência, retirando troncos, folhas, frutos apodrecidos, fezes de animais e qualquer matéria orgânica acumulada, sobretudo nos cantos úmidos e sombreados. Mantenha o lixo bem fechado.
- Horário dos passeios. Evite passear ao entardecer e à noite, quando o mosquito está mais ativo, e deixe o cão dentro de casa nesse período sempre que possível.
Nenhuma dessas medidas funciona bem sozinha. A coleira afasta o mosquito do cão, enquanto o quintal limpo e as telas reduzem a quantidade de mosquitos por perto.
O que Belo Horizonte faz, e o que isso ensina?
Belo Horizonte usa coleiras com inseticida no controle da doença desde 2023. Cerca de 175 mil coleiras já foram usadas, contando as trocas semestrais, nas áreas com mais casos humanos, mais cães positivos e maior vulnerabilidade social. Mesmo assim, a própria Prefeitura lembra que o encoleiramento é uma ação complementar e não substitui os cuidados com o ambiente. Em 2025, a capital registrou 17 casos humanos e cerca de 4 mil cães positivos.
A lição vale para quem mora em Lagoa Santa e nas cidades vizinhas: a coleira é uma aliada importante, mas o quintal limpo continua sendo a base.
E a vacina contra a leishmaniose?
Existe vacina para cães, mas ela não substitui a coleira nem os cuidados com o ambiente. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, a vacina só é indicada para cães sem sinais da doença e com exame negativo, e não é uma medida de controle recomendada pelo Ministério da Saúde. As recomendações da WSAVA, a associação mundial de veterinários de pequenos animais, lembram que cães vacinados ainda podem se infectar e transmitir o parasita, e consideram as medidas contra o mosquito, como as coleiras, mais importantes que a vacina.
Há também uma questão de disponibilidade: a Leish-Tec, vacina usada no Brasil, teve a fabricação e a venda suspensas pelo Ministério da Agricultura em 2023. Se você pensa em vacinar, pergunte na consulta qual é a situação atual. As demais vacinas do cão estão no calendário de vacinas de cães e gatos.
Existe tratamento para o cão?
Existe, com regras. Hoje há apenas um medicamento com registro autorizado para tratar a leishmaniose canina no Brasil, conforme a Nota Técnica Conjunta nº 001 do Ministério da Agricultura e do Ministério da Saúde. A Portaria Interministerial nº 1.426/2008 proíbe tratar o cão com remédios de uso humano ou sem registro no Ministério da Agricultura.
O tratamento é uma escolha individual do tutor e não é considerado uma medida de saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde, ele pode fazer os sinais desaparecerem, mas o cão continua podendo ser fonte de infecção. Por isso, o cão tratado precisa de acompanhamento veterinário contínuo, com exames periódicos e cuidados para reduzir o contato com o mosquito, como telas e passeios fora do entardecer. O Ministério da Saúde também inclui a eutanásia entre as medidas de controle da doença.
Se o exame do seu cão der positivo, converso com você com calma sobre cada caminho, com informação clara e sem pressa.
Resumo
- O mosquito-palha pica ao entardecer e à noite: passeie fora desse horário.
- Coleira com inseticida, trocada no prazo da bula.
- Telas de malha fina onde o cão dorme.
- Quintal sem folhas, frutos caídos e fezes acumuladas.
- Emagrecimento, queda de pelos, feridas no focinho ou unhas crescendo demais pedem exame.
- Remédio de uso humano, nunca: além de proibido, não é o caminho.
Perguntas frequentes
Leishmaniose passa do cachorro para as pessoas?
A transmissão para as pessoas acontece pela picada do mosquito-palha infectado. O cão entra na história porque, nas cidades, ele é o principal reservatório do parasita: o mosquito se infecta ao picar um cão doente e depois pode picar pessoas. Por isso, proteger o cão com coleira e manter o quintal limpo também protege a família.
De quanto em quanto tempo devo trocar a coleira?
Siga o prazo da bula do produto escolhido. No programa de Belo Horizonte, a coleira com deltametrina a 4% é trocada a cada seis meses. Troque antes se ela se perder, estragar ou ficar frouxa, e anote a data da troca para não esquecer. A escolha do produto é feita na consulta, conforme o peso e a saúde do cão.
Meu cão está emagrecendo e com feridas no focinho. Pode ser leishmaniose?
Pode, mas outras doenças causam sinais parecidos, como algumas doenças de pele e a esporotricose. Só o exame clínico, junto com exames de sangue, esclarece o que está acontecendo. Posso examinar o cão e coletar o sangue em casa, o que evita levar um animal abatido até a clínica.
A coleira dispensa os cuidados com o quintal?
Não. A própria Prefeitura de Belo Horizonte trata a coleira como ação complementar. O mosquito-palha se cria em matéria orgânica acumulada, como folhas e frutos caídos, e a maioria não se afasta mais de 250 metros de onde nasceu. Sem limpar o quintal, os mosquitos continuam por perto.
Posso tratar meu cão com remédio de uso humano?
Não. A Portaria Interministerial nº 1.426/2008 proíbe tratar a leishmaniose canina com produtos de uso humano ou sem registro no Ministério da Agricultura. Existe um único medicamento veterinário registrado para isso, e o tratamento exige acompanhamento contínuo, porque o cão tratado pode continuar sendo fonte de infecção.
O exame de leishmaniose pode ser feito em casa?
A coleta, sim. Colho o sangue na sua casa, com o cão no ambiente dele, e envio a amostra ao laboratório parceiro. O resultado é interpretado junto com o exame clínico e, se for preciso, pedimos um teste complementar para confirmar.
Fontes e referências (5)
- Leishmaniose visceral canina — Prefeitura de Belo Horizonte (2026-09-11)
- BH fornece coleiras com inseticidas em cães para controle da leishmaniose — Prefeitura de Belo Horizonte (2026-05-21)
- Leishmaniose visceral — Ministério da Saúde
- Recomendações sobre a vacinação para médicos veterinários de pequenos animais da América Latina — WSAVA — Grupo de Diretrizes de Vacinação
- Guia prático para enfrentamento da esporotricose felina em Minas Gerais — CRMV-MG (Revista V&Z em Minas)


